Hospício de Barbacena morre ‘sem glória’ e sob aplausos

Ex-pacientes participaram de evento que marca semana de encerramento do Hospital Colônia; filme com história do local foi exibido na Câmara Municipal

Enviada especial a Barbacena – O psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho afirmou, durante o III Congresso Mineiro de Psiquiatria, em 1979, que o Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes, caso morresse “de velhice”, morreria sem glória. Nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, antigos militantes da luta antimanicomial e representantes políticos se reuniram na Câmara Municipal do município de mais de 125,3 mil habitantes com a mesma certeza. Algo incomum àquele passado, no entanto, evidenciava a mudança dos tempos: ex-pacientes psiquiátricos, antes excluídos da vida pública em longas internações no Colônia, compunham a mesa ao lado de autoridades que, décadas antes, seriam as únicas bem-vindas na “Casa do Povo”.

Uma celebração simbólica pelo Dia Nacional da Luta Antimanicomial foi montada na Praça dos Andradas, no Centro da cidade, com o marco da transferência dos últimos 14 pacientes do Colônia para uma residência terapêutica, modelo de moradia assistida no qual Barbacena se tornou referência. Hoje, o município conta com 22 dessas unidades, com cerca de 150 sobreviventes do manicômio. Dezenas deles ocuparam fileiras do público do filme “A Liberdade Escreve o Ponto Final”, exibido pela prefeitura, atentos à própria história, enquanto passavam despercebidos pelos pedestres.

Coleta Rodrigo Gomes, de 74 anos, no entanto, era parada a toda hora por algum conhecido e retribuía a gentileza. Com a saia combinando com a meia e as unhas cor-de-rosa – sinal de que a manicure havia visitado sua residência terapêutica –, torna-se difícil imaginar que aquele sorriso esconde uma história de sofrimento durante a internação no Colônia. Ela ainda se recorda dos dias de abandono. “Amigas eram as pacientes; de resto, eu podia morrer lá. Uma vez, eu estava passando mal, com 40°C de febre, e o médico disse que era agitação minha”, relata. “Eu ficava jogada naquele pátio [DO COLÔNIA], ficava presa. Eles colocavam cadeado, e eu saía às 3h da manhã. Isso é hora? Se eu não saísse, puxavam a coberta”, continua Coleta, sem titubear.

– Confira a íntegra do especial “Onde mora a razão?”

A idosa ia e voltava no tempo durante a conversa, volta e meia se lembrando das amigas pacientes que já se foram: “A Dona Valquíria morreu. Morreu também a Sônia”[DO COLÔNIA]. Segundo se lembra, deu entrada no Colônia aos 19 anos e teve que entregar uma filha, nascida no hospital, a um dos trabalhadores da instituição. Já no início dos anos 2000, ao passar a viver em residências terapêuticas, teve reencontros com ela fora dos muros do hospital.

“Barbacena tem um longo histórico de hospitais psiquiátricos. Por isso, trabalhamos, desde o fim do século passado, na mudança da lógica manicomial para uma lógica de liberdade. É um paradigma difícil de romper, mas repetimos todos os dias que é possível que essas pessoas estejam em sociedade, frequentem a igreja, viajem e façam compras no comércio. Por isso é tão importante fortalecer a rede de saúde mental, para que ela seja, de fato, substitutiva ao cuidado manicomial”, diz a coordenadora de Saúde Mental de Barbacena, Flávia Vasques.

Morre o hospício, nasce um hospital

A edificação onde milhares de pacientes do Hospital Colônia viveram internados nunca foi completamente desocupada, e nem há previsão para isso. Hoje, o espaço abriga o Complexo Hospitalar de Barbacena, que reúne, além do Centro Hospitalar Psiquiátrico, o Hospital Regional e o Museu da Loucura. Trata-se, como explica o gerente de internação Márcio Antônio Resende, de uma estratégia de transformação de um hospício em, enfim, um hospital.

Uma das principais medidas que marcaram essa mudança começou ainda no fim da década de 1990 e só será concluída neste mês, com a desospitalização dos 14 últimos pacientes do Colônia: a concessão de alta hospitalar. Atualmente, o Centro Hospitalar Psiquiátrico conta com 30 leitos de internação para pacientes em crise, que chegam encaminhados pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps).

Isto é, ao contrário dos tempos de manicômio — quando as internações ocorriam de forma indiscriminada, muitos pacientes permaneciam até a morte e havia superlotação, com registros de cerca de 5 mil internos para apenas 200 leitos —, a premissa atual é de permanências breves, com alta, em média, dentro de 21 dias. A taxa de ocupação, hoje em torno de 70% dos 30 leitos disponíveis, evidencia como as hospitalizações declinaram.

“Mesmo com a transformação em curso junto ao hospital geral, o leito psiquiátrico segue essencial para o restabelecimento do paciente em fase aguda. Hoje, o foco é conseguir reinseri-lo na comunidade, sempre em articulação com a rede de atenção. Trata-se de uma internação curta, objetiva, ética e humanizada. Não há, neste momento, qualquer discussão sobre o fechamento desses leitos”, afirma o gerente Márcio Antônio Resende.

Segundo ele, o Hospital Regional conta com 90 leitos, sendo 20 de terapia intensiva (CTI), com destaque para os atendimentos em traumatologia e ortopedia, além de ser habilitado na linha de cuidado do AVC. O ambulatório registra cerca de mil consultas mensais, que abrangem desde atendimentos em saúde mental até às demais especialidades.

Já os 25 leitos da Unidade de Cuidados Prolongados são destinados a pacientes que demandam reabilitação, e não a casos psiquiátricos. O complexo também está em processo de habilitação de leitos de referência em neurocirurgia. “Barbacena tem hoje um hospital regional que atende toda a população da região de saúde Centro-Sul de Minas. No mesmo prédio onde antes havia pacientes praticamente em celas, hoje temos modernos blocos cirúrgicos e CTIs”, avalia o historiador Edson Brandão. Para se ter ideia da dimensão do alcance do atendimento, a região de saúde abrange cerca de 800 mil habitantes.

Fonte: O Tempo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *