Uma breve história de como o caratinguense se relaciona com o cinema
CARATINGA – Entre pioneirismo, ápice, reformas, fechamentos, demolição, reconstrução, descasos, ressurgimentos e chegada de novas mídias, a relação entre Caratinga e o cinema poderia ser um roteiro de filme, daqueles que mostra os personagens vivendo entre o amor pela sétima arte, como em “A Rosa Púrpura do Cairo”, e o drama de não ter uma sala de exibição na cidade, como o enfrentado no clássico “Cinema Paradiso”.
CARATINGA COM “C” DE CINEMA
O primeiro take da “Cidade das Palmeiras” com o cinema começou em 1932. À época, a cidade contava com o Cine Popular, localizado à Praça Cesário Alvim. Conhecido informalmente como Cine Leite, o empreendimento pertencia à família Leite, e se destacava por usar um projetor que permitia a exibição de filmes com áudio sincronizado e em boa qualidade, o que conferia destaque a Caratinga, já que poucas cidades do Brasil possuíam essa tecnologia, conforme mostra a pesquisa acadêmica da mestra em patrimônio cultural Lourdes Rodrigues.
O negócio familiar foi vendido para o grupo Circuito Cinematographico Brasil, em 1940, que posteriormente realizou melhorias na projeção de filmes e na comodidade dos espectadores. Com o sucesso comercial, o cinema foi posteriormente reformado e renomeado de Cine Popular para Cine Brasil, indo para a Praça Getúlio Vargas. Em 24 de julho de 1947, o prédio que abrigava a telona foi inaugurado e impressionou com inspirações no luxo da art décô. “Uma obra monumental (…), de vastas proporções, amplo, artístico, suntuoso (…) tal sua beleza arquitetônica e o conforto que terão ali os espectadores (…)”, classificava o jornal “O Município”, citado no estudo desenvolvido pelo professor Tiago da Cunha Rosa.
Na década de 1960, o Cine Brasil foi vendido para o empresário Wantuil Teixeira de Paula. Em 1995, a sala de exibição foi descontinuada. A partir daí, o Cine Brasil teve vários plot twists (termo técnico para reviravoltas do roteiro): aluguel do espaço para igreja evangélica, saída da igreja evangélica, inatividade, volta do cinema, fechamento do cinema, abandono, tentativa de tombamento, recusa do proprietário em assinar o tombamento, demolição irregular, manifestação popular contra a demolição, ação de defesa de patrimônio cultural por parte do Ministério Público, reconstrução da fachada e aluguel para ponto comercial. Atualmente, a construção não lembra em nada o glamour do escurinho do cinema.
Contudo, um espaço de preservação da história do cinema em Caratinga foi criado pela Secretaria Municipal de Cultura, no ano passado. O Memorial Cine Brasil inclui 12 cadeiras originais, equipamentos antigos e fotos do período histórico. O local é aberto para visitação e está localizado à Praça Getúlio Vargas.
Outro set cinematográfico é o Cine Itaúna. Inaugurado em 15 de novembro de 1960 à Rua Coronel Pedro Martins, o espaço era um dos maiores do Brasil, com mil e oitocentos lugares e uma tela de projeção com aproximadamente 23 metros de altura. O empreendimento era de propriedade da Emprêsa Cinematográfica Mineira S/A. Filmes de faroeste, comédias com Mazaroppi; sessão dos namorados, às quartas; sessão de terror, às sextas; produções com conteúdo erótico, às 22h; e clássicos do cinema como “Casablanca” e “Marcelino Pão e Vinho” marcaram a vida dos cinéfilos.
Em meados dos anos 1980, o cinema foi desativado e, ao longo dos anos, passou a funcionar como ponto comercial, igreja evangélica e estacionamento. Em 2018, o Cine Itaúna foi reaberto, após uma reforma, e é o único espaço de exibição comercial de cinema em Caratinga.
Com períodos extensos sem salas de exibição, o caratinguense teve de recorrer ao cinema em casa, assistindo aos filmes pela televisão aberta ou por assinatura. Outra opção era comprar um DVD pirata à venda no calçadão da antiga rodoviária ou pelas bancas de camelôs espalhadas pela cidade. Ainda havia a possibilidade de aluguel de produções cinematográficas nas videolocadoras, como as icônicas “Sétima Arte” e “Super 8”, que desapareceram como modelo de negócio após a mídia física ser substituída por plataformas de streamings, como Netflix e HBO Max.
CINEMA COM “C” DE CARATINGA
Nem só de astros e estrelas de Hollywood vive Caratinga. O caratinguense também se vê nas telas. A produção cinematográfica mais recente a ter a “Cidade das Palmeiras” como cenário foi o filme “Tudo o que é sólido”, filmado ano passado e dirigido por Márcio Heleno Soares, que assina o roteiro com André Regal. O longa também foi rodado em Imbé de Minas, Ubaporanga e Ipatinga. A trama gira em torno de uma relação amorosa que dá início a uma guerra entre gangues rivais. O elenco conta com atores locais, além de famosos como Humberto Martins, Kant, Adriana Rabelo e Eduarda Samara. A estreia aconteceu na última segunda-feira (11), no Cine Itaúna.
Outros filmes também mostraram o talento caratinguense na telona. Em 2021, seis produções foram contempladas em edital da Lei Aldir Blanc municipal: a animação “Ponhamos-nos a caminho”, os curtas-metragens “Kamehameha” e “Keven” (selecionado para um festival de cinema no Ceará), o média-metragem “Se foi Maria”, o minidocumentário “Rap na pista” e o documentário “A vida é um festival”. Todos estrearam gratuitamente no Cine Itaúna.
* Emanuel Luiz Brandão (especial para o DIÁRIO)

