Tem dias em que a pergunta não é mais “como você está?”, mas sim: você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A resposta, quase sempre, vem atravessada. Porque já não basta só comida, na verdade, nunca bastou. A gente quer um pouco mais de mundo, um pouco mais de sentido, um pouco mais de vida como a vida quer. Mas a cidade anda estranha. De longe, parece uma rosa: organizada, iluminada, cheia de promessas. De perto, espeta. Há um veneno miúdo nas relações, uma espécie de desconforto silencioso diante da alegria alheia. Como se sorrir fosse um ato de afronta. Como se viver bem fosse suspeito.
Alô, alô, alguém na escuta? Porque daqui da Terra, a sensação é de transmissão em ruído constante. E, pra variar, estamos em guerra, literalmente com tanques e soldados, com ideias tortas, verdades rasas e uma pressa que não deixa ninguém respirar direito. O ser humano parece sempre à beira de alguma coisa: de um colapso, de um grito e sem sombra de dúvidas, está tudo cada vez mais down in the high society.
Nesse momento, paramos e pensamos que há sempre um zepelim pairando sobre nós. Grande, ameaçador, cheio de possibilidades desastrosas. A cidade inteira para, espera o pior, prepara o corpo para o impacto. Mas, às vezes, contra toda lógica, alguém desce e diz: “mudei de ideia”. E naquele instante breve, quase invisível, o mundo se salva de si mesmo. A gente vai sobrevivendo. Dias sim, dias não. Sem grandes arranhões aparentes, mas com pequenas rachaduras por dentro, sobrevivendo da caridade de quem nos detesta. O tempo não para e talvez esse seja o maior susto. Porque enquanto ele passa, a piscina enche, as ideias não acompanham os fatos e a gente segue tentando entender onde foi que perdemos o compasso.
No meio disso tudo, há quem siga sozinho, assumindo seus erros como quem carrega uma bandeira. Porque, no fim das contas, talvez o que importe mesmo seja isso: não estar vencido. Cair, tropeçar, quebrar ritos, reinventar caminhos, mas continuar. E quando tudo pesa, a gente volta pra casa. Liga a televisão, tenta distrair a dor, fingir normalidade. Mas até os anúncios parecem saber demais, e eles sabem: insistem que é bom amar. Como se fosse simples. Como se fosse fácil. Só que não é.
O fato é que o mundo anda com pouco amor pela vida. E isso transborda nas ruas, nas falas, nas ausências. Tem fogo demais sendo aceso por descuido ou descaso. E quem não entra nesse jogo vira estranho, vira careta, vira alvo. Mas penso que, ainda assim, é preciso dar um jeito, meu amigo. Descansar não adianta muito quando a realidade chama. Levantar é inevitável. E quando a gente levanta, percebe: quanta coisa aconteceu e ainda assim, estamos aqui. Sabe, talvez seja isso. Entre venenos e zepelins, guerras e anúncios, o que resta é esse movimento insistente de continuar. Com fome, com sede, com dúvida, mas sobreviventes, porque de fato, tá tudo cada dia mais down in the high society.